quinta-feira, outubro 19, 2006

Madame Pommery, de Hilário Tácito

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Em 1919 José Maria Toledo de Malta publicou sua única obra literária, sob o pseudônimo de Hilário Tácito. Surgido três anos antes da Semana de Arte Moderna, Madame Pommery está ausente de quase todas as interpretações históricas da tradição literária brasileira. Parece-me que o responsável pela redescoberta da obra foi Mário Chamie. Porém, sua releitura teve como limitação a tese de que o livro era um precursor do pan-sexualismo de Oswald de Andrade. Como precursora, uma obra é pensada como algo inacabado, cujo sentido último se revelaria no tempo, por outros textos. É o paradoxo de uma idéia como “pré-modernismo”, hoje pouco usada, mas ainda pressuposta em vários trabalhos de crítica literária: a projeção da imagem de que a temporalidade é regida por um destino, como se certos textos fossem meras amostras canhestras daquilo que os sucederia. Mas reconhecemos o serviço que o poeta Mário Chamie prestou a todos nós, lendo e discutindo o livro de Hilário Tácito.
A edição de 1977 foi realizada pela Academia Paulista de Letras, com um prefácio de Osmar Pimentel, em que se diz que Madame Pommery é um retrato da São Paulo do começo do século. Mas, que tipo de retrato seria esse? A obra já se expõe como artefato ficcional na contracapa, onde Hilário afirma que o livro é “crônica muito verídica e memória filosófica de sua vida (da personagem principal), feitos e gestos mais notáveis”. O signo do livro, e isso é dado de mão beijada ao leitor, é a ironia. Como retrato, Madame Pommery seria uma fotografia na qual o fotógrafo aparecesse fotografando a si mesmo, diante do pano de fundo de uma cidade enevoada, parecida com qualquer cidade grande (São Paulo, por exemplo...).
A história é a de uma cafetina que conseguiu criar um bordel muito bem organizado, lucrativo e influente nos altos meios sociais da cidade. Madame Pommery, e sua sabedoria prática, política e empresarial, seria para a prostituição brasileira o mesmo que Machado de Assis para a literatura, sua redenção. Apresentado ainda como farsa filosófica, o livro pode ser entendido como paródia de manual do sucesso, da construção de uma carreira sólida.
Os títulos dos capítulos de Madame Pommery lembram o estilo dos ensaios de Montaigne. Tome-se, como exemplo, o terceiro: “Em que o autor se empenha grandemente para responder a estas perguntas – Quem é Mme Pommery? Donde veio? Por que veio? E onde a lenda supre a história...” Mas além disso, a escrita de Hilário Tácito segue os mesmos contornos tortuosos dos ensaios do filósofo. Cada pequena aventura dá ensejo a uma digressão, cada acontecimento é motivo para uma reflexão de cunho moral. Mas tudo de modo a se representar um baile de teorias pretensiosas, infundadas, sarcásticas. A sinceridade do ensaísmo é então abolida pela mentira que se assume. Como diz o autor, o leitor precisa saber que “Madame Pommery vive e respira, é tão real como eu, que escrevo”. Mas, por outro lado, é bom saber que um jogo desse tipo não cai no fetiche do fracasso do pensamento, ou no mutismo dito pós-moderno.
O cético experimenta a alegria de mentir, mas ao se definir como mentiroso incorrigível também pretende ser aquele que desmascara as pretensões da verdade e da moral. Assim, só para dar um exemplo, um dos freqüentadores do bordel, Mangancha, apresentou sua versão pessoal para a implementação da eugenia social – a criação de uma raça de super-homens a partir do alcoolismo como meio de seleção. Segundo Mangancha, o álcool seria calor em estado puro, o alimento mais concentrado de todos. Depois de uma hiperexposição das pessoas aos efeitos do poderoso alimento, apenas os mais fortes sobreviveriam.
O livro não fica somente nisso, traz um filosofia do amor, discute teses econômicas e religiosas, analisa a complementaridade entre os ideais da família e a prostituição. A ironia de Madame Pommery é a constatação de que a sociedade não comporta um lugar privilegiado para as verdades e a moral. Estas, são expressões dos jogos, sutis ou brutais, do desejo. A eugenia do bêbado que defende o álcool em nada difere da eugenia do ariano que pretende “branquear” a nação. Cristãos, judeus e muçulmanos, pretensos portadores da verdade, são mentirosos que se agridem diante de um espelho. A única vantagem de Hilário Tácito é sua sinceridade quando diz estar mentindo, a literatura é a farsa escolhida para desenhar a trama dos desejos em conflito.


Daniel Faria - e-mail:
krmazov@hotmail.com

*Foto- Madame Pommery – ed.Unicamp - 1992

1 Comments:

Blogger Vera do Val said...

Bem vindo , Daniel. Que essa sua bela resenha seja só a primeira.
Beijão
vera

19 outubro, 2006 09:37  

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