quinta-feira, maio 15, 2008

O escritor e seus fantasmas


O escritor e seus fantasmas
Ernesto Sabato
Companhia das Letras

Ernesto Sabato é o autor de “Sobre Heróis e Tumbas”, uma das três maiores obras da literatura latino-americana de todos os tempos (as outras duas são, obviamente, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa), mesmo considerando que seu primeiro romance, “O Túnel”, também reeditado pela Companhia das Letras, já era um clássico. Junto com “O Túnel”, a editora publicou quase ao mesmo tempo o livro de memórias de Sabato, “Antes do Fim”, o amargo e poético testemunho deste velho senhor nascido em 1911, agora quase cego e que tem se dedicado à pintura por conta dos seus problemas de visão, pois uma tela exige menos dos seus olhos. Ainda assim, continua com uma lucidez impressionante e uma mentalidade afiada e instigante. (demorou um pouco para reeditar também seu terceiro romance, “Abadon, O Exterminador”, mas aconteceu)
“O Escritor e seus Fantasmas” são as reflexões de Sabato sobre o ofício de escrever. Publicado pela primeira vez na Argentina em 1963, fez parte de uma intensa discussão sobre a literatura e seus compromissos onde se misturavam, e se confundiam, propósitos políticos e ideológicos, além dos propriamente artísticos. A grande questão talvez fosse saber onde ficavam os limites, se é que existiam, entre arte e realização pessoal em contraponto a uma literatura desejosa de radicais transformações sociais. Hoje em dia, com a derrocada do mais poderoso expoente e sustentador da nefasta política de uma cultura proletária em oposição a uma cultura burguesa e decadente, esta discussão parece ter sido superada pela própria realidade.
Aparentemente, então, boa parte deste livro pode ser considerada como distante, antiga e ultrapassada, uma curiosidade quanto muito. No entanto, mesmo se Sabato se limitasse a um ataque a literatos marxistas, dos quais a História, com H maiúsculo, já tenha se encarregado de jogar na lata do lixo, só por isso já valeria a pena conhecer seu pensamento.
“O Escritor e seus Fantasmas” vai muito além da descrição de uma rixa entre literatos. Em primeiro lugar, porque Sabato não se coloca como um pensador profissional de literatura teórica. Ele não é um crítico ou um filósofo literário, muito menos um pesquisador. Ele é, acima e antes de tudo, um escritor.
É através de sua árdua experiência prática e cotidiana, que ele vai tecendo suas considerações. Afinal de contas, para que um escritor escreve? No prefácio, Sabato é bem claro: “Este livro se constitui de variações em torno de um único tema, o que tem me obcecado desde que comecei a escrever: por que, como e para que se escrevem ficções?”
Não há capítulos ou progressão geral para um pensamento único. São considerações que podem tomar várias páginas como quando discute o pretenso desaparecimento do romance como gênero literário ou quando combate o “subjetivismo” e o “cientificismo” na literatura. Ou, então, apenas um parágrafo, uma idéia, uma citação de algum outro autor.
Deste livro, algo que se impõe à primeira vista é o profundo comprometimento do artista com sua arte. Sabe-se como Sabato pode ser sério em suas convicções: sua primeira formação foi como físico. Deixou a Física, mesmo tendo fortes possibilidades de ganhar o Prêmio Nobel por suas pesquisas, porque ela não lhe completava como ser humano e nem respondia a suas angustiadas questões morais e pessoais. A literatura, sim, a arte em geral podem proporcionar respostas.
Esse engajamento na arte deve ser absoluto. Em um trecho intitulado “A condição mais preciosa do criador”, ele diz que essa condição é “O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito”. Mais para frente, diz: “O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais”.
Para Sabato, a arte não pode ser prostituída: “Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra”. Então, como viver? “De qualquer modo, desde que a criação não seja manuseada, abastardada, barateada: montando uma oficina mecânica, trabalhando de empregado em um banco, vendendo quinquilharias na rua, assaltando um banco”.
Partindo de Sabato, estas afirmações adquirem uma conotação que saem do meramente retórico. Afinal, ele é uma pessoa que teve a coragem moral de assumir suas convicções e de pagar por elas.
Fanatismo artístico, no entanto, não significa cegueira cultural. Ao lado de todo esse seu radicalismo artístico, há uma enorme dose de sobriedade e lucidez. Ao discutir a visão marxista de arte, por exemplo, Sabato critica, ataca e denuncia a falsidade dos quadros dogmáticos e esquemáticos dos marxistas de carreira tanto quanto a ignorância e preconceito dos que acreditam que o marxismo, e o próprio Karl Marx, se reduzem a um economicismo simplório.
Sua ironia fina, elegante e penetrante e a escrita direta e simples, marcas absolutas de toda sua literatura, estão presentes aqui em alto grau. Em um trecho intitulado “Sobre os perigos do estruturalismo”, ele comenta: “Quase tudo é estrutura. Como afirmou solenemente um professor: com a única exceção do que é amorfo, tudo apresenta uma estrutura. O que é mais ou menos como dizer que, com a única exceção dos animais invertebrados, todos são vertebrados”, isto é, uma “pomposa imbecilidade”.
A tentação de encher este texto com citações é quase incontrolável; quase a cada página, é possível encontrar uma pérola. O que não significa que não haja também momentos baixos ou afirmações óbvias e simplistas. Mas, elas não atrapalham nem o desmerecem. Afinal, “O Escritor e seus Fantasmas” são as palavras de quem sabe o que está fazendo e fez durante a vida inteira.

Claudinei Vieira - Desconcertos

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domingo, março 30, 2008

A grande arte da luz e da sombra

A grande arte da luz e da sombra
Arqueologia do cinema

Laurent Mannoni,
Unesp/Senac

Apesar de tão jovem, mal acabou de completar pouco mais de cem anos de idade, a arte cinematográfica possui uma considerável quantidade de estudos historiográficos, biográficos, analíticos e até filosóficos. Apesar disso, considerada a arte do século XX mesmo que muitas vezes cotada a desaparecer principalmente por conta do aparecimento da televisão, ela abriu o século XXI com toda a pujança e força de uma adolescente feroz. Este enorme número de materiais de estudo acaba nos levando a alguns perigos: primeiro, a de nos conduzir a um falso sentimento de conhecimento e tranqüilidade; é como se já soubéssemos tudo o que pudesse ser sabido. Por outro lado, faz-nos desconsiderar alguns temas considerados “marginais”, “sem muita importância”.
Exemplo claro dessa ambivalência é o nosso posicionamento geral perante os primeiros passos do cinema. É comum considerar o cinema mudo e preto-e-branco (os charles-chaplins e harold-loyds da vida) como os antecessores imediatos, e infantis, do “verdadeiro” cinema, sério, bem construído e estruturado. Esta é uma falácia comum que ultimamente está sendo destruída passo-a-passo. É até chocante perceber o quanto este cinema “infantil” não tem, na verdade, nada de primário e que muito da arquitetura dramática de todo o cinema atual já existia desde o começo, totalmente estruturada e conscientemente utilizada.
O que dizer então da Pré-História do Cinema? Aliás, qual é mesmo o sentido desta frase? Vejamos: a base da existência do Cinema é a Fotografia, não é mesmo? Se o Cinema em si é uma ilusão de ótica provocada pela rápida sucessão de fotografias fixas, sua “pré-história” seria o desenvolvimento da própria arte fotográfica, certo? Pois é... Não! A Fotografia é um dos fatores fundamentais, sem dúvida, mas não é o único.
O que Laurent Mannoni faz é descortinar um imenso universo de uma história fantástica. “A Grande Arte da Luz e da Sombra” resgata a história dos homens preocupados em construir aparelhos que projetem imagens. Em movimento. É uma relação impressionante de aparelhos, experimentações, pesquisas. É uma história empolgante e fascinante, narrada com uma simplicidade e fervor que atiçam ainda mais a leitura.
Essa preocupação pela projeção da imagem é muito antiga, vai alem do final do século XIX, passa do XVIII. Mannoni começa sua história ali pelo século XIII! Mais: se formos sérios podemos regredir até à Antiguidade... Afinal, o princípio da Câmara Escura é conhecido por Aristóteles.
CAMARA ESCURA. Lição de Física Básica Escolar. ÓTICA: Tome-se um ambiente completamente vedado à luz, uma sala ou uma caixa. Faça-se um pequeno orifício em algum ponto do ambiente. No lado ou parede opostos ao do orifício, ficará refletida a imagem do ambiente exterior. Se a parede estiver coberta com um material apropriado, tela branca por exemplo, a imagem ficará mais nítida. Este simples experimento ainda hoje impressiona, imagine-se então para um Aristóteles. Com um agravante, um detalhe que fez muito cientista perder o sono pelos séculos afora: a imagem refletida estará de ponta-cabeça e invertida, isto é, da esquerda para a direita e vice-versa. Fenômeno curioso mas facilmente explicável pela Ótica atual.
Lembremos que a imagem não está, por natureza, fixa e sem movimento. Se o ambiente fechado for uma sala e o ambiente externo for uma rua, a imagem captará toda a movimentação.
Isso leva diretamente a duas preocupações: por um lado, a da fixação desta imagem; e por outro, um problema óbvio, o da luz, já que não é sempre que existe luz natural do Sol. Por exemplo: à noite! Uma vela então é um bom substituto, mas muito provisório. Uma lanterna, lampiões, são bem melhores, mas precisam ser bem construídos para que não pegue fogo na caixa, na tela ou no próprio projetista. Jogos de espelhos e vidros, com lentes invertidas, ajudam ainda mais. Com uma projeção familiar, tosca e simples, e ao mesmo tempo tão eficiente leva-se à questão de O Quê ser projetado: um desenho pintado em um vidro transparente, amplia as possibilidades ad infinitum. Será uma imagem parada, mas há um truque muito simples e prático: mexa a vela ou o lampião de um lado para o outro! Ou então faça vários orifícios e aí então mexa na vela.
Veja-se bem: estamos falando dos séculos entre o XIII e o XIX, onde a Câmara Escura, ricamente trabalhada, pesquisada, renomeada como Lanterna Mágica é um sucesso popular absoluto. E se tudo isso parece á primeira vista muito bobo, então é porque o leitor nunca foi a um circo ou um parque de diversões e assistiu a um show de transformações da Monga, a mulher-macaco. Os lanternistas, os mascates com um caixa de lanterna-mágica nas costas que percorriam a Europa com suas projeções populares e “miraculosas”, só desapareceram completamente nos primeiros anos do Século XX!
Minuciosa, detalhada e pacientemente, Mannoni nos revela todos os detalhes, todos os passos, todos os percalços, máquina por máquina, experimento por experimento, pesquisador por pesquisador, cientista por cientista.
Este lado da projeção e da iluminação é um viés. Outra vereda histórica é o da fixação da imagem. Que se liga, embora não seja uma relação direta, a uma pequena característica do organismo humano, especificamente o da retina, conhecida como “persistência retiniana” ou “persistência da visão”. Todos sabemos o que é isso. Se olharmos fixamente para a luz de uma vela ou lâmpada, continuaremos “enxergando” um pequeno ponto luminoso, mesmo que fechemos o olho. O grande físico Isaac Newton foi um dos pioneiros na explicação deste fenômeno. Ele olhava para o Sol e anotava quanto tempo a iluminação permanecia em sua vista. Obviamente, quase ficou cego: durante meses, não conseguiu se livrar de um círculo negro que embaçava seus olhos.
A retina retém por um certo tempo a imagem de um objeto. Se substituirmos rapidamente esta imagem por uma outra parecida, mas com uma certa posição diferente e mais outra imagem e outra... voilá! A impressão que teremos é que estas imagens (que sabemos serem fixas) darão a ilusão de estarem se mexendo. Portanto, se juntarmos este principio da persistência retiniana, com o desenvolvimento da fotografia ou o daguerreotopia, em uma sala escura e com uma iluminação apropriada... teremos o Cinema, certo?
Ainda não. Resta o grande problema de fazer com que estas fotografias se sucedam de uma forma harmônica para que a ilusão seja perfeita. É necessário um aparelho que a) pegue a foto (ou o desenho), b) coloque-a devidamente no foco de luz, c) substitua-a no tempo exato para que a imagem não se perca ou seja “esquecida e d) tudo isso precisa ser manobrado do modo mais eficiente para que tudo não fique embolada,a fita não se quebre, a lâmpada não se apague ou provoque uma explosão e taque fogo na sala, na máquina, no projetista, etc e tal.
Uma grande sacada foi fazer pequenos furos nas margens das fotos, coloca-las em um mecanismo de roldanas com varetas que penetram nos furos, puxando-as e movimentando-as, com um motor que imprime um ritmo regular.
Mannoni descreve cada um destes aparelhos, sua sucessão e seu desenvolvimento: o coreutoscópio giratório, o estereoscópio, o bioscópio, o fantascópio, o fotobioscópio, passando pelas fantasmagorias e os polioramas, a fundamental zoopraxografia, a cronofotografia, o fonoscópio, o praxinoscópio, desembocando no quinetoscópio e no quinetógrafo. Isso só para citar alguns dos mais importantes.
Pois bem, com o quinetoscópio de Thomas Edison temos que quase praticamente os filmes tais quais como os conhecemos hoje em dia. Este aparelho era uma caixa individual com um visor onde cada pessoa mediante o pagamento do ingresso aproximava o rosto e via uma sucessão de imagens, às vezes até com um certo enredo.
Filmes, sim. Cinema...? Ainda não. Isto se concretiza de verdade quando em 1895, dois irmãos, os Lumiere (que nome magnífico para tais pessoas!, impossível ser mais apropriado), promovem com o seu cinematógrafo uma sessão aberta para várias pessoas ao mesmo tempo, em uma mesma sala, em uma mesma tela, onde todos sentem o impacto da imagem-que-se-mexe.
A emoção, a paixão, e o amor que Laurent Mannoni consegue passar para sua narrativa é o ingrediente indispensável para que o seu livro não seja uma simples sucessão de relatórios de maquinas de nomes exóticos. Lemos “A Grande Arte da Luz e da Sombra” como um verdadeiro romance de suspense, palpitante, misterioso e instigante. A bela edição das editoras Senac e Unesp respeita a farta iconografia original: o livro é recheado de desenhos, fotos e ilustrações. Nada menos que o necessário para tal obra.

Claudinei Vieira – Desconcertos

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terça-feira, março 18, 2008

O botão de Puchkin

O Botão de Puchkin
Serena Vitale,
Ed. Record


Serena Vitale nos faz mergulhar nos quatro últimos meses da vida de Puchkin, o poeta nacional da Rússia. Mais do que uma simples biografia, no entanto, ela compartilha conosco toda a emoção da pesquisa, das informações desencontradas e dos debates acalorados que até hoje persistem. Ela nos conduz pelos labirintos das intrigas, nos faz presenciar a caça de documentos, de cartas escondidas, de outras desaparecidas para sempre e de outras que somente agora vieram à luz. Um verdadeiro trabalho de detetive e de dedução, tentando separar os fatos dos simples boatos, as acusações das maledicências puras, para somente depois de muita procura e averiguações, tentar chegar a alguma conclusão. Ela nunca faz uma afirmação sem especificar de quem foi buscar a informação e tentar entender a sua validade e veracidade.
As circunstâncias da morte de Aleksandr Puchkin ainda estão cercadas de muita polêmica. Não do duelo em si: no dia 27 de Janeiro (8 de Fevereiro, segundo o Calendário Juliano) de 1837, o poeta duelou com pistolas com Georges d'Anthès, um oficial francês que havia pouco tempo tinha se incorporado na guarda russa e se casado com a irmã da mulher de Puchkin, Natalia. O casamento provocou um verdadeiro furor na alta sociedade russa, pois todos sabiam (ou comentavam, ou fofocavam) que ele havia se casado somente para poder disfarçar sua verdadeira paixão, isto é, Natalia. Mas as investidas de D'Anthés não teriam parado mesmo com o casamento e Puchkin o desafiara, afinal, para defender sua honra. O poeta recebeu um tiro no estômago e morreu depois de três dias de agonia.
As paixões e os sentimentos aqui envolvidos complicam esta história que, em tudo, lembra o enredo de uma novela romântica, inclusive de algumas escritas pelo próprio Puchkin. Quando morreu, o poeta gozava do auge de sua fama. Estava somente com 37 anos de idade, mas já tinha moldado toda uma literatura: era o líder (e praticamente o fundador) do movimento romântico russo; suas baladas e suas sagas de personagens históricas, escritas em formas de versos, buscavam inspiração nas raízes culturais e folclóricas nacionais; foi o primeiro a utilizar a linguagem popular, cotidiana, em seu trabalho literário, criando uma mescla de beleza e alto rigor lingüístico ao mesmo tempo em que popular e acessível. É reconhecido como o criador da língua moderna russa.
É um verdadeiro herói em sua terra. A cada ano, uma caravana se dirige ao seu túmulo na data de sua morte levando velas e flores, passando a tarde declamando seus poemas.
Além disso, Puchkin era um satírico mordaz, um crítico inteligente e divertido, o que certamente só aumentava sua popularidade. Se como poeta podemos compará-lo ao romântico Lorde Byron e, como formador cultural, ao também romântico Goethe, como satírico é inevitável pensar em Voltaire, com a mesma crítica social e sátira corrosiva.
E há o mesmo relacionamento de amor e ódio para com a aristocracia. Mesmo não fazendo parte de nenhum partido político de oposição (potencialmente perigoso para uma sociedade dominada pela feroz autocracia czarista), ele incomodava e dava muito trabalho para os censores que, em troca, eram constantemente fustigados pelas palavras impiedosas do poeta.
Fama e popularidade, no entanto, não se traduziam em dinheiro. Nascido em família nobre, mas empobrecida, mesmo assim conseguiu casar com a mais bela moça da família Gontcharov. Todas as descrições são unânimes: por onde quer que passasse, Natália Nikolaevna brilhava e ofuscava todas as outras beldades, despertando a inveja das mulheres e a admiração dos homens.
E praticamente por aí acaba a unanimidade. Qual a personalidade de Natália, quais as suas idéias e sentimentos, é impossível saber. Não existe documentação, nenhuma carta sobrou. Ela está muda para nós. Só podemos ouvir os murmúrios de outros, percebemos ecos pelas cartas de Puchkin que chegaram até os dias de hoje. Sabemos que gostava de participar dos bailes, onde era a rainha incontestável. Palavras maldosas nos dizem que tanta beleza era uma magnífica capa para uma pessoa frívola e coquete cujo único propósito na vida era justamente (e somente) dançar. A verdade se dispersa no meio dos murmúrios.
Georges D'Anthés também não é tão fácil de discernir. Execrado pela sociedade russa, expulso das forças armadas do país, voltou para a França em desgraça. Sua vida estabilizou-se, viveu longamente (até os 83 anos) tornou-se político, anos depois foi embaixador designado pelo próprio Luís Bonaparte para fazer negociações (ironia das ironias!) com o czar. Até onde ele teria ido em suas investidas em Natalia Puchkina? Até onde ela teria cedido? Até que ponto tudo foi uma brincadeira inconseqüente? Ou uma traição consciente?
A grande qualidade do texto de Serena Vitale é o modo como ela consegue nos fazer sentir como se estivéssemos participando junto com ela desta investigação. Batemos cabeça, nos desesperamos com a falta de informação ou ficamos perdidos com tanta informação desencontrada. De repente, ela pára a narrativa, nos traz para o presente, diante de um baú da família dos descendentes de D'Anthés e encontramos cartas! Com emoção, abrimos os envelopes e gritamos de alegria: buracos inteiros da história são finalmente revelados, dúvidas são esclarecidas, a busca paciente valeu a pena. Tudo bem que novos problemas sejam colocados, isso também faz parte.
Um exemplo particularmente interessante é sobre as cartas anônimas. Alguns meses antes de sua morte, Puchkin e vários outros membros da sociedade receberam cartas anônimas dizendo que o poeta teria aderido ao Clube dos Cornos. Irascível, passional, ciumento, briguento, sensível para os mexericos desta sociedade que conhecia tão bem, Puchkin não precisava de muito mais para desafiar D'Anthés. Estaria ele também convencido da frivolidade de sua mulher ou foi somente para resgatar a humilhação do seu orgulho ferido? O fato é que estas cartas, das quais existem ainda duas cópias, foram a gota d'água.
Sua autoria nunca foi estabelecida ou provada, embora as discussões tenham sido intermináveis. Vitale repassa todos os possíveis culpados, compara suas letras, julga os possíveis (e os necessários) dotes culturais para a feitura da redação, relaciona os graus de amizade e relacionamento com a alta sociedade russa e, no final, com relativa segurança, indica-nos quem, na sua opinião, teria sido o responsável.
A impressão é que Vitale sabe tudo, leu tudo, conhece todo mundo. Para a autora, não se trata de personagens históricas, mas gente de carne e osso que amou, sofreu, odiou. Mais do que isso, ela consegue transmitir essa compaixão e sua empatia em um texto emocionante que lemos como se fosse um romance policial; viramos as páginas sofregamente, ansiosos não só para descobrir as novas revelações, mas o modo como isso foi feito. E para o leitor que for fisgado (o que é fácil, basta começar a ler) e chegar até o final, Serena Vitale nos recompensa com o fruto desse esforço, uma extraordinária e impactante conclusão.
Sem dúvida, um belo e instigante livro que consegue fazer do ato de escrever seu verdadeiro personagem principal.
Claudinei Vieira – Desconcertos

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