Cassius Clay/Muhammad Ali - Norman Mailer


Houve um tempo em que uma disputa de título mundial dos pesos pesados era mais do que uma simples luta. Houve um tempo em que os boxeadores eram mais do que máquinas de moer de ossos, e sabiam articular frases com sujeito, verbo e predicado, todos concordando entre si. Houve um tempo em que a opressão era regra, mas se era permitido sonhar, porque era o sonho tangível, e não se encaixava num slogan bonitinho de qualquer Ong.
Até os idos de 60, o boxe era um esporte marginalizado, praticado por marginais e assistido pelos mesmos, controlado por iguais - se você se lembra do personagem de Marlon Brando em Sindicato dos Ladrões, saberá do que estou falando.
Foi neste momento que surgiu Ali, com toda sua vaidade, sua matraca histriônica, seu jeito provocador e sensual, que para muitos não passava de puro exibicionismo. E era...também. Nenhum pugilista, nem antes nem depois, foi tão bom marqueteiro de sua imagem. Nenhum ajudou tanto na construção do seu próprio mito.
A partir de Ali, o boxe passou a ser palco dos debates raciais passaram a tomar conta do debate público da fermentada consciência americana dos anos 60. O esporte passou a ser uma metáfora política da luta pela emancipação da população negra, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.
De uma hora para outra, um falastrão negro aguado se torna uma nova esperança para os anseio de todo um povo discriminado, tolhido dos seus direitos civis por séculos e séculos. Ali não era apenas um campeão, que teve seu título roubado por se negar a lutar na Guerra do Vietnã, era uma matraca ambulante e irresistível, um revolucionário a seu modo naqueles anos tão famintos por revoluções. Um líder belo e arrebatador para os negros em todo o mundo, na batalha pela sua emancipação. Como se não fosse o bastante, ele simplesmente revolucionou o modo de lutar boxe e a sua vitória sobre Foreman em 1974, quando recuperou o título, o imortalizou com o maior de todos pugilistas. Talvez se você assistir aos taipe de suas lutas, poderá achar que estou me perdendo em exageros... Ou talvez seja você que viu lutas de Tyson e Popó em demasia.


Norman Mailer
Cia das Letras
Mais do que um embate de gigantes, o confronto entre Ali e Foreman, era o confronto de duas forças ideológicas. De um lado o muçulmano, controverso, paradoxal, um líder da autonomia negra. De um outro, o arrogante que vestia calções com as cores da bandeira americana e simbolizava o establishment branco e não admitia que se falasse mal do Império em sua frente.
O livro também é um relato do poder da palavra. Tão sabiamente usada por Ali, tão rejeitada por Foreman. O primeiro sabia que a palavra é poder, pois a usava, manipulava a todo instante. É sintomática a fala de Ali a Foreman, quando os dois se encontram no ringue, no prelúdio da luta: "Você ouviu falar de mim desde quando era jovem. Você tem seguido meus passos desde quando era menininho. Agora você precisa me encontrar, seu mestre". Começa aí a queda de Foreman. Começava um capítulo marcante da história do boxe, capítulo glorioso que não se repetirá tão cedo.
A Luta, não é só um livro sobre o boxe ou mesmo sobre Ali, é um livro sobre o tempo em que falar em ideologia fazia sentido. É um livro sobre um tempo em que rebeldia e indignação não estavam à venda nos shopping, a preços módicos. E que torcer por uma vitória de um boxeador, era na verdade acreditar em um sonho.
Flavio Vinicius - Pelosta