
O Clube do bangue – bangue
Greg Marinovich - João Silva
Editora - Companhia das letras
Tradução – Manuel Paulo Ferreira
A foto é famosa: em um canto, uma criança africana, morrendo de inanição; do outro lado, um urubu, como à espreita, esperando o momento dela morrer.
A imagem foi tirada no Sudão em 1993 durante uma caravana de ajuda de entidades assistencialistas que levavam alimentos e serviu como parte de uma campanha mundial para divulgar as péssimas condições de "vida" do país. Conferiu ao seu autor, Kevin Carter, o prêmio Pulitzer de fotografia.
Outra foto, igualmente premiada com o Pulitzer, igualmente com o mesmo impacto, foi tirada durante os tumultos que agitaram a África do Sul durante os quatro anos que antecederam a eleição de Nelson Mandela para a presidência. Um homem, depois de ser perseguido por uma multidão furiosa que o chuta, bate e esfaqueia, recebe um tratamento nada incomum naqueles dias: um pneu embebido de gasolina é colocado em seu pescoço e o fogo ateado. Greg Marinovich clica exatamente o momento quando, com o fogo recém-aceso, um manifestante crava um facão no crânio daquele homem.

Greg Marinovich, Kevin Carter, João Silva e Ken Oosterbroek, além de vários outros, faziam parte de um grupo de jovens fotógrafos que começaram a se destacar ao mostrarem as atrocidades ocorridas durante os estertores do apartheid. Com ousadia e destemor, beirando a insensatez e a inconsciência, eles corriam atrás de notícias e fatos, passaram por muitos perigos, escaparam muitas vezes da morte. O resultado foi a revelação de horrores e violências que escapavam ao senso comum e que, de outra forma, teriam ficado escondidas e ignoradas.
Mas, isso também significou um preço impressionantemente alto em suas existências. As cenas que acabavam de ver e registrar em suas câmeras impregnavam-se em suas mentes e os perseguiam em pesadelos como não o faria nenhum filme fotográfico. Muitos não resistiram.
Em 1990, Nelson Mandela finalmente foi libertado depois de 27 anos preso. Sua libertação apontava para o final do regime que durante décadas foi o símbolo máximo do racismo e da prepotência dos brancos em um país cuja população era constituída maciçamente de negros. Um acordo foi sendo árdua e dificultosamente costurado para que houvesse eleições onde cada pessoa, independente de sua cor, pudesse votar. A cada pessoa, um voto, afinal. Ninguém duvidava de quem ganharia nestas condições. Mandela era o depositário das esperanças do fim da opressão.
Isso no nível institucional. Nas ruas, a violência explode. Nos albergues nas periferias das cidades, com sua enorme concentração populacional e condições econômicas miseráveis, as diversas etnias, os diversos grupos partidários pró e anti-CNA, partido de Mandela, se digladiavam. Além do que, mais tarde constatou-se a forte participação de grupos policiais e para-militares do governo branco utilizados para atiçar os ódios, organizar e apoiar gangues armadas ou assassinar líderes políticos.
No meio do tumulto, uma revista sul-africana monta uma matéria sobre um grupo de fotógrafos que estava se tornando conhecidos por sua loucura e arrojo em conseguir suas fotos e parecia estar sempre presentes onde houvesse tiroteios e mortes e o chama de os "Os Paparazzi do Bangue-Bangue". Eles não gostaram do termo "paparazzi", que lhes pareceu um tanto fútil, e a revista mudou para "Clube". Eles se resignaram, pois afinal o título era uma espécie de reconhecimento do seu trabalho e acabaram assumindo-o.
Esse Clube foi sendo forjado no calor dos acontecimentos. Eram, em sua maioria, brancos, muito jovens, sem muito discernimento político, embora tivessem compreensão de que estavam participando, de alguma forma, da História. A consciência do perigo que passavam e a caça de emoções e de adrenalina enquanto as balas passavam ao seu lado, também faziam parte. As contradições pessoais, as crises de consciência, a descoberta do horror, igualmente. Cada um sobreviveu e manteve a lucidez como pôde. E enquanto pôde.
Marinovich, ao resgatar as lembranças da formação daquele grupo e de suas experiências, busca dar sentido a algumas indagações que martirizaram a todos e que, na verdade, poucos tiveram a coragem de enfrentar: qual o momento em que o fotógrafo deve parar de clicar e começar a "agir"? E o que significa "agir", neste caso? Suas câmeras não eram como tantas outras armas que ajudavam a revelar a verdade? Suas fotos também não ajudavam a destruir o regime? Marinovich não responde diretamente (talvez nem haja uma resposta plausível) e rememora de quantas vezes eles ajudaram a carregar corpos ou prestaram primeiros socorros pelo simples fato de serem os únicos presentes além dos feridos ou de possuírem os únicos carros com condições de levá-los ao hospital. Mas, sempre depois de tirarem as fotos.
Marinovich diz que semântica e literalmente eles pisavam em cadáveres e faziam disso seu trabalho. Com isso ganharam prêmios e tiravam seu sustento. A comparação com o urubu ao lado da criança é desagradável, mas inevitável. Ele diz que, no entanto "Nunca matamos ninguém e, na verdade, até salvamos algumas vidas. E, talvez nossas fotos tenham feito alguma diferença". Mais do que qualquer outra coisa, isso parece ser o grito de alguém que tenta convencer a si mesmo.