domingo, fevereiro 10, 2008

O Despertar


Kate Chopin

Li, há algumas semanas, esta novela de Kate Chopin, O DESPERTAR. Até então, só tinha lido um conto de Chopin, The Storm, fazia parte daquele livro Erotic Stories by Women, falei dele aqui.

O Despertar é a história de Edna Pontellier , uma mulher casada, mãe de dois filhos, e a descoberta de si mesma
através de uma paixão 'proibida' na sociedade da época que tinha a mulher mais como um ornamento do que como um ser humano. O livro mais conhecido de Kate Chopin trouxe-lhe muitos dissabores, tantos que ela não escreveu mais nada depois dele. Hoje ainda é muito lido é discutido nos Estados Unidos, sobretudo em meio de grupos feministas.

Um dos personagens secundários mais importantes desta novela é Mademoiselle Reisz por ser uma das que mais influencia Edna nas suas buscas. Reisz é exímia pianista, solteira e mal humorada, não suporta aquela sociedade e não faz de conta, o que importa para ela e sua arte. Ele adverte, entretanto, um verdadeiro artista tem que ser corajoso e ter uma alma desafiadora. Edna quer ser pintora, isto é perfeitamente aceitável pelo marido e pela sociedade, desde que a mulher não negligencie o seu papel de mãe e esposa. Adèle Ratignolle é a personagem que melhor representa a mulher ideal da época, tem talento musical e o usa para entreter a família e amigos, adora o marido, os filhos, é desinibida, inteligente. É amiga de Edna e preocupa-se com as transformações que percebe no comportamento desta, sabe que aquilo pode levar a uma fatalidade.

Robert Lebrun é um rapaz de 26 anos por quem Edna se apaixona, ele corresponde, mas sente que pode causar mais mal do que bem a Edna nesta sociedade onde a mulher não tem quase nenhum poder sobre sua existência.

Leila M. Silva Terlinchamp - Cadernos da Bélgica.

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domingo, janeiro 06, 2008

Fun Home
Uma Tragicomédia em Família

Alison Bechdel
Editora: Conrad
Fun Home foi lançada no Brasil no final de 2007, pela Conrad, eu tinha lido em algum lugar que seria em 2008. Será que adiantaram? Pode ser, a HQ já estava a toda nos Estados Unidos, onde foi lançada em 2006, e também na Europa. Trata-se da biografia de Alison Bechdel, uma moça corajosa e honesta, pelo menos é isso que ela passa através da história, a sua história e a do seu pai, principalmente. A mãe também está bastante presente, mas a prioridade é dada à figura do pai, um homossexual que nunca teve coragem de sair do armário, que mantinha relações com o baby-sitter dos filhos ou seus próprios alunos. Alison conta tudo, é a impressão que temos. A história não é linear, num momento ela trata da infância, no quadrinho seguinte já está na universidade lendo uma carta do pai com quem a autora tinha muitas afinidades intelectuais. Ela e o pai são leitores compulsivos, a história está repleta de referências literárias: Proust, Wilde, Joyce, Colette e uma longa lista. Referências são sempre um risco, pode resvalar certo pedantismo. Não é o caso aqui, são bem colocadas, são irônicas e verdadeiras e todo mundo que gosta de literatura se diverte encontrando ali os autores, citações, capas de livros.
O título é também bastante interessante, o FUN remete primeiramente à idéia de uma casa divertida, mas é também uma alusão à casa funerária que era propriedade de sua família e que eles costumavam chamar de Fun Home. Quem já viu a série Six feet under, não vai deixar de perceber uma relação. Sobretudo que Alison é gay, assim como um dos personagens de Six feet under. Ela, ao contrário do pai, sai logo do armário, antes de ter a sua primeira relação já foi abrindo o jogo com a família e colegas de universidade.
Alison Bechdel nasceu em 1960, na Pensilvânia, é também autora de Dykes To Watch Out For, já recebeu um prêmio Eisner.Não é pouco.

Aqui você pode ler uma parte da história.

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sexta-feira, março 30, 2007

Um homem sem pátria

Um homem sem pátria (Record) é o mais novo livro de Kurt Vonnegut, seu trabalho mais conhecido deve ser Matadouro 5, mas escreveu mais de trinta romances. Agora, aos 84 anos, (agora não, em 2005) publica esta coleção de ensaios, são textos corrosivos, mas, por vezes, com muito humor, por exemplo: "A última coisa que eu queria era estar vivo quando os homens mais poderosos do planeta se chamam Bush, Dick e Colon" O autor critica a política estado-unidense, os líderes do seu país, a dependência do automóvel, as invasões e mentiras perpetuadas em nome do petróleo.

Vonnegut ficou meio estigmatizado como escritor de ficção científica, sobre isso ele escreve:

Tornei-me um "escritor de ficção científica" quando alguém decretou que eu era um escritor de ficção científica. Eu não queria ser classificado como tal, por isso me perguntei de que maneira eu havia ofendido as regras para não merecer o crédito de escritor sério. Decidi que era porque eu escrevia sobre tecnologia, e os melhores escritores americanos nada sabem sobre tecnologia. Fui classificado como escritor de ficção científica simplesmente porque escrevi sobre Schenectady, Nova York. Meu primeiro livro, Revolução no futuro, era sobre Schenectady. Existem imensas fábricas em Schenectady e nada mais. Eu e meus companheiros éramos engenheiros, físicos, químicos e matemáticos. E, quando escrevi sobre a companhia General Electric e Schenectady, pareceu uma fantasia do futuro para críticos que nunca tinham visto o local.

E destila o seu pessimismo em várias partes do livro, destaco esta:

Já se deram conta de que toda grande literatura — Moby Dick, As aventuras de Huckleberry Finn, Adeus às armas, A letra escarlate, A glória de um covarde, A Ilíada e A Odisséia, Crime e castigo, a Bíblia e "A carga da brigada ligeira" — fala da merda que é pertencer à espécie humana? (E não é um grande alívio ouvir alguém dizer isso?)
E dá conselhos:
"Se querem realmente magoar seus pais e não têm coragem de se tornar gays, o mínimo que podem fazer é entrar para as artes. Não estou brincando. As artes não são uma maneira de ganhar a vida, são uma maneira de tornar a vida mais suportável. Cantem no chuveiro. Dancem ao som do rádio. Contem histórias. Escrevam um poema a um amigo, até mesmo um poema horrível. Façam isso da melhor maneira que puderem. Receberão uma enorme recompensa. Terão criado algo."

Kur Vonnegut é de origem alemã, nasceu nos Estados Unidos no dia 11 de novembro de 1922. Em 1945 testemunhou o bombardeio de Dresden enquanto prisioneiro de guerra, ele foi um dos sete sobreviventes. Esta experiência deu origem a Matadouro 5.

Sobre Dresden ele escreve em Um homem sem pátria:

Vi a destruição de Dresden. Vi a cidade antes, e então saí de um abrigo antiaéreo e a vi depois, e certamente uma das minhas reações foi a risada. Sabe Deus, é a alma buscando algum alívio.
Qualquer assunto está sujeito à risada e imagino que houve risadas de algum tipo muito grotesco entre as vítimas de Auschwitz.
O humor é quase uma reação fisiológica ao medo. Freud disse que o humor é uma reação à frustração — uma das muitas reações.

Leila Silva Terlinchamp - Cadernos da Bélgica.

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segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Impératrice de Chine


Impératrice de Chine
Pearl Buck
Le livre de Poche

Impératrice de Chine é um romance histórico que trata da vida de Tzu Hsi, uma mulher que ficou no poder, na China, por quarenta e sete anos, de 1861 até 1908, ano de sua morte. Venerada por alguns e odiada por outros.

Tzu Hsi foi escolhida, dentre inúmeras meninas manchus, como concubina para o imperador Xianfeng. Em 1856 Tzu Hsi deu à luz o único herdeiro de sexo masculino do Imperador e foi, por isso, elevada à categoria de Consorte Imperial Yi. O Imperador Xianfeng morreu em 1861, o príncipe herdeiro tinha apenas cinco anos, assim Tzu Hsi começou a reinar e só deixou a cidade proibida e o poder por um curto período, deixando os negócios de estado a cargo de seu filho. Afirmam, entretanto, que ela nunca esteve, de fato, afastada do poder, seus espiões eunucos traziam-lhe todas as informações. Seu filho, o imperador Tongzhi, morreu muito cedo, aos 19 anos e Tzu Hsi voltou a ocupar o trono. Não sem violar algumas das leis de sucessão segundo alguns historiadores. Impératrice de Chine narra a história de Tzu Hsi até pouco antes de sua morte.

A autora, Pearl S. Buck, nasceu em 1892 em Hillsboro, West Virginia. Filha de dois missionários cristãos, foi para a China quando tinha três meses de idade, os pais tinham sido enviados numa missão. Assim Pearl Buck cresceu na China, só voltou para os Estados Unidos para freqüentar o Randolph-Macon Woman’s College em Lynchburg, Virginia. Saiu-se muito bem nos estudos, mas não se sentia em casa nos Estados Unidos e preferiu voltar para a China depois de formada.
Em 1931 publicou The Good Earth, pelo qual recebeu o prêmio Pulitzer em 1932, em 1938 recebeu o prêmio Nobel de literatura. Morreu em 1973.
Leila S. Terlinchamp - Cadernos da Bélgica

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sexta-feira, dezembro 08, 2006

Os homens são necessários?

Maureen Dowd é uma famosa colunista do The New York Times, recebeu um prêmio Pulitzer pela cobertura do caso Clinton-Lewinski em 2004, publicou Bushworld: Enter at Your Own Risk, depois disso veio seu livro de ensaios, Are Men Necessary?, que provocou muito falatório nos Estados Unidos na época em que foi lançado. Eu não o li, só algumas partes aqui e ali na internet. Vi que este seu livro foi traduzido e publicado pela editora Nova Fronteira, o título é o mesmo que em inglês, Os homens são necessários? Na página da Nova Fronteira é possível ler o primeiro capítulo, é uma prosa divertida.

Eis a sinopse da página da Nova Fronteira:

“Apesar do espaço que as mulheres conquistaram no mercado de trabalho, elas ainda parecem se comportar como os homens querem. Sem medo da reação que podem causar essas e outras opiniões polêmicas, a colunista de política no New York Times Maureen Dowd trata dos rumos atuais da chamada guerra dos sexos no livro Os homens são necessários? Quando os sexos entram em choque, lançado pela Editora Nova Fronteira. A influente jornalista, vencedora do prêmio Pulitzer pela cobertura do impeachment do presidente Bill Clinton, trata do retorno aos hábitos femininos dos anos 1950 e de como o mundo masculino incorporou as artimanhas do sexo oposto para manter o poder.”

Num dos ensaios Maureen escreve:
“Nos anos 50 as mulheres passavam o aspirador. Hoje, elas são aspiradas. Os nossos aspiradores de pó voltaram-se contra nós.” (.....) “É o feminismo vencido pelo narcisismo.” Uma crítica à obsessão moderna pela aparência. Lembrei-me de uma revista besta que folheei outro dia na cabeleireira, mostrava a Sônia Braga toda refeita, linda mesmo, mas ri muito quando ela afirmava que o importante mesmo é o ‘ interior da pessoa’, a alma ou sei lá que baboseira. Well, é melhor ficar calada, não?

Alguns acharam o livro de Maureen muito exagerado, outros acharam que ela está querendo espezinhar ou que está repleto de anedotas. O interessante e inesperado é que muitas mulheres reagiram negativamente ao seu livro e enviaram muitas cartas à redação do The New York Times , a própria Maureen se disse surpresa com isso. Apesar das minhas observações o livro ainda não está na minha estante esperando na fila. Só fiquei curiosa depois de ler no jornal uma nota sobre ele. Se um dia desses eu me animar, volto com uma resenha.
Mais sobre Maureen Dowd aqui.
Leila Silva Terlinchamp - Cadernos da Bélgica

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