domingo, julho 30, 2006

“A louca da casa”: o humor e a reflexão de Rosa Montero

A louca da casa
Rosa Montero


Ediouro

Deve haver alguma coisa muito especial no ar da Espanha dos últimos anos e vez em quando parece que é em Madri que melhor se consegue juntar coisas que parecem inconciliáveis como o amargor e o humor, o passional grotesco e a poesia, a leveza e a profundidade (claro que falo da Madri de Pedro Almodóvar, que parece referência para tudo que a Espanha oferece de mais pertinente em arte, para quem não mora lá e só pode imaginar).
De modo que recebi de uma amiga o livro de Rosa Montero, “A louca da casa” (Ediouro, 196 páginas), já pensando um pouco nisso, mas também precavido, porque na capa há uma menina de rosa destacando-se numa família em fotografia em preto e branco, e quase se vai inevitavelmente pensar que se trata de um livro autobiográfico em que a escritora decidiu falar de sua diferença, de sua formação dramática como menina sensível em meio a uma família conservadora (sabemos como os espanhóis podem sê-lo; há todo um imaginário da Espanha reacionária e cruel ligada ao cinema de Saura, ao teatro de Lorca, que já nos preparou para isso). Mas, daí, saltando para a contracapa, não que é descobrimos que “a louca da casa” não é aquela menina exatamente, mas vem da frase de Santa Teresa de Jesus, referindo-se à imaginação? Ali, há uma referência elogiosa ao livro feita por Vargas Llosa e um texto que diz, entre outras coisas, que esse é um livro “indefinível”.
É mesmo, mas é também um deleite, talvez porque, aos poucos, a leitura nos vai dando um mundo de indefinições que nos diz muito respeito. Porque é um livro sobre esse ser ansioso, presa da imaginação, que somos nós, escritores, e é um livro em que uma escritora decide falar a esse respeito – escrita, vida, outros escritores – de um modo tal que pode ser lido com proveito por todo mundo. Sem o terror da erudição intimidante e aquela masturbação acadêmica que torna a metalinguagem uma chatice implacável, repleta de citações e notas de rodapé. Não: Rosa Montero faz do ensaio um precioso ingrediente do prazer e da paixão da narrativa, sem pôr ninguém para dormir pela presunção.

Um mundo bem conhecido

Quem quer que goste de Literatura e goste de ler sobre escritores vai encontrar em Rosa Montero ecos do que já soube em algum outro lugar, outras leituras, mas tudo reunido de um jeito cativante, no corpo de sua narrativa. Vamos conhecer coisas já bem conhecidas, frases, conceitos, recuperadas de modo até mesmo meio didático. É um pouco o que parece a falha inicial do projeto, rendendo-se à superfície e à explicação e deixando o leitor à vontade com o já-sabido, mas, aos poucos, entende-se que essa é a astúcia da narradora para nos levar para dentro de seu mundo ficcional.
Quem é que, escritor informado, um dia não soube, por exemplo, da trágica história de Truman Capote, que, depois da proeza do romance-reportagem “A sangue frio”, tornou-se um mundano vaidoso e totalmente possuído pelo sucesso que se deixou atrair mais pelo mundo das socialites, do jet-set, da badalação, que pela tarefa de escrever de fato? Talvez poucos se lembrem de Capote. Para os mais ligados em cinefilia, é só dizer que é dele a história de Holy Golightly em “Bonequinha de luxo” e é dele o soberbo roteiro de “Os inocentes”, dirigido por Jack Clayton, o melhor filme de terror já feito. Capote, homossexual, acabou sua carreira depressa demais, pela atração esterilizante do mundanismo, e aí Rosa Montero conta a sua história para exemplificar como o sucesso pode ser letal para o escritor verdadeiro, como as tentações que oferece são corruptoras. Só por esse trecho o livro já mereceria ser lido – deixaria de cabelo em pé os escritores desesperados pela fama reles e passageira de mídia que estão por aí, produzindo livros mais para fazer barulho que para serem lidos propriamente . Lembramos de Capote, tristemente, menos pelo talento enorme que foi, mas como aquele cara que Gore Vidal, muito abaixo dele em qualidade literária, alfinetou o tempo todo, como uma comadre “gay” perversa. Mas há muita gente citada – Carson McCullers (preciosa escritora norte-americana injustamente esquecida), Kipling, Goethe, Kafka, enfim, um elenco para lá de ilustre.
Às inserções de comentários de escritores sobre o escrever, sobre os editores (“Os escritores que aos olhos dos editores não passam de um monte de esfarrapados, deviam lidar com eles como se faz com porcos tinhosos” disse o para nós obscuro Robert Walser, que naturalmente, morreu quase todo inédito e louco) e sobre o resto que conhecemos bem, Rosa Montero junta algumas histórias pessoais que chegam a parecer irrelevantes, mas, aos poucos servem para nada menos que dar todo o sentido ao livro.
Caso de sua relação romântica com um ator de cinema americano de passagem por Madri. Ela a conta nada menos que três vezes, cada uma de um jeito, e sempre com a mesma verossimilhança que deriva do talento de um ficcionista, essa “verossimilhança” que costuma deixar os leitores crédulos dispostos a acreditar na inteira verdade que o impostor profissional lhe relata e é obra do talento, não da fidelidade à experiência, de resto plástica e indefinida o bastante para permitir todos os vôos da imaginação.
Rosa Montero é uma revelação para nós. Ao que me consta, “A louca da casa” é seu primeiro livro publicado no Brasil, embora ela tenha atrás de si toda uma carreira de jornalista e escritora premiada na Espanha. Vale conhecê-la. Até porque um livro como “A louca da casa” é mais revelador que duzentas mil teses cheias de jargões e redundâncias insuportáveis e, acima de tudo, entretém inteligentemente. E precisamos – nós, os submetidos a tantos escritores chatos e posudos - de entretenimento o mais inteligente e refinado possível.

Chico Lopes

sábado, julho 29, 2006

Código da Vinci é proibido no Irã

A pedido do pequeno grupo cristão do país, livro de Dan Brown é proibido no Irã e certamente ajudará a falar um pouco mais do autor (estou fazendo a minha parte) e acrescentará mais uns milhões à sua conta bancária. Só o código Da Vinci vendeu 40 milhões de cópias, os que vieram depois, Anjos e demônios, por exemplo, são menos conhecidos, mas são também best sellers.

Foto: Dan Brown.

Marcadores:

quinta-feira, julho 27, 2006

Literatura e jornalismo

Ficar ou não ficar
Tom Wolfe

Ed Rocco.


"Ficar ou Não Ficar", de Tom Wolfe é um livro para quem gosta de polêmica, disputa de idéias e boas reportagens. Indispensável para jornalistas e pretendentes. No final dos anos setenta, Wolfe já era um jornalista consagrado como um dos criadores do New Journalism americano e eu nem ouvi sequer falar dele na universidade. Duvido que esteja sendo lido hoje. Questões ideológicas, presumo.

O Novo Jornalismo foi o nome que se deu ao uso de técnicas literárias na narrativa jornalística. Não é exatamente uma novidade e dito assim pode produzir equívocos tais como leads engraçadinhos. No caso de Wolfe, Novo Jornalismo significa um modo próprio de misturar densidade intelectual, investigação primária e uma linguagem agressiva - quase marrom, às vezes, de tão irreverente. O resultado é devastador: armado de argumentos, Wolfe chega a ser malévolo. Em alguns momentos, lembra Mike Tyson: não consegue parar de bater. O melhor exemplo são os dois artigos que fecham o livro, escritos com a única intenção de demolir a aura oracular da tradicionalíssima revista "New Yorker". Minto: há também o artigo que antecede esses dois, "Meus Três Patetas", onde Wolfe responde com ferocidade às críticas que dois "monstros sagrados" da literatura americana contemporânea, Mailler e Updike, lançaram contra seu segundo romance, Um Homem Por Inteiro.
Esta é outra marca de Wolfe. Munido de um arsenal de fatos, boa argumentação e gosto pelo escândalo, ele investe sempre contra a unanimidade - sempre. No mínimo, buscando um ângulo nem exatamente novo, mas "esquecido".
Um exemplo: quem poderia imaginar que toda essa "nova filosofia administrativa" americana - esse papo de descentralização, organização vertical, delegação de poder, trabalho em equipe, etc - a boa nova que ainda faz a fortuna de tantos gurus e consultores empresariais - não é uma novidade saída das grandes universidades do Leste, mas a simples transposição para o mundo dos negócios da rígida ética calvinista promovida por um único homem, um caipira genial?
Essa "surpresa" nos é revelada no melhor de todos os artigos, "Dois Rapazes a Caminho do Leste", que narra a história do Vale do Silício a partir da biografia daquele que foi seu fundador e inspirador, o "caipira" Bob Noyce.
Lê-se o texto como um conto - a custo nos dando conta de que aquilo tudo são fatos e não ficção. Não só pela escritura em si, mas pela novidade, para a maioria provável dos leitores, de todos os nomes. Para quem gosta de Informática, História, Nova Economia, etc. é um prato cheio e já justificaria a compra do livro.
Bob Noyce foi, nada menos, do que o inventor do circuito integrado, do microchip, um dos pioneiros do Vale do Silicio e o fundador da Intel, a célula-matriz da qual todos os demais concorrentes e fornecedores saíram. Uma figura lendária. E esquecida.
Aliás, não é uma tese explícita de Wolfe, mas pode-se depreender do artigo seguinte que, se Bob Noyce é o pai mítico da Era Digital, Teilhard de Chardin, foi seu profeta. Sim, ele mesmo, Teilhard de Chadin, o esquecido teólogo jesuíta francês que sua tia católica vivia insistindo para que você lesse...
É surpreendente, não?

Outra coisa a se destacar: fundar a história do Vale do Sicílio na biografia de um homem, é tomar partido por uma abordagem da História francamente anti-marxista, que privilegia a ação humana individual à luta de classes e contra todo determinismo histórico.
Quero dizer com isso o óbvio: que há um pensamento que sustenta o texto de Wolfe, onde nada é portanto fortuito. Óbvio porque ele mesmo, muitas vezes, faz a defesa de sua estética.
Suas teses sobre Cultura e História o aproximam, entre outros, de Alain Bloom - e suas críticas ao relativismo e ao multiculturalismo (O Declínio da Cultura Ocidental) - e de Arthur Schelsinger Jr. - e sua resposta a interpretação marxista da história americana (Os Ciclos da História Americana) - dois livros, aliás, muito interessantes, ainda mais nestes tempos de Bush.
Wolfe crê na América como o paradigma da Democracia e é sob essa perspectiva assumidamente imperial que sua crítica deve ser entendida. Para ele, os EUA são os herdeiros do legado civilizatório passado de mão e mão ao longo dos séculos, desde a Atenas de Péricles até a Nova York dos dias de hoje.
É dessa prespectiva que ele tece sua crítica à América. Não há culpa, nem tampouco "desconstrução do discurso tirânico". Há, sim, uma "chamada" cáustica à responsabilidade, uma cobrança explícita de coerência entre a realidade e o projeto americanos.

Nesse sentido, o desdém que consagra a Foucault e Derrida não é mera "originalidade" ou "conservadorismo", mas resultado de uma "tomada de posição" alinhada à tradição anglo-saxã de apreço aos fatos e à capacidade da língua de representá-los adequadamente. Wolfe decididamente não está contaminado por essa "desconfiança da linguagem" que resulta no que poderíamos chamar de "pânico do compromisso", expressão que me ocorre agora e remete ao título do livro "Ficar ou Não Ficar". (Trata-se do artigo de abertura, onde Wolfe, à maneira de um memorialista do futuro, fala de um distante ano 2000 com algum espanto. É engraçado - me lembrou outro "esquecido", Kurt Vonnegut). Num ambiente dominado pelo "relativismo" qualquer compromisso soa como uma opção herética pela Verdade.
Aparentemente, Wolfe contrapõe a esse "neoespiritismo franco-germânico", que tem em Heidegger seu pai-de-santo, o neoevolucionismo, uma espécie de perversão hiperrealista que reduz tudo à genética. Fotos do cérebro? Bergson, em Matéria e Memória, já oferecia, há quase um século, argumentos interessantes contra essa tese ou qualquer outra que reduzisse o pensamento às funções cerebrais. Logo no prefácio, ele cria uma imagem que ilustra bem sua posição: "Que haja solidariedade entre o estado de consciência e o cérebro, é incontestável. Mas há solidariedade também entre a roupa e o prego onde ela está pendurada, pois, se retirarmos o prego, a roupa cai. Diremos por isso que a forma do prego indica a forma da roupa ou nos permite de algum modo pressenti-la?".
Wolfe, no entanto, aposta suas fichas na evolução tecnológica que daria suporte às teses da neurociência monista ou antidualista, que nega a existência de qualquer coisa como alma, mente, ego ou que nome se dê a essa "outra" entidade que "parece" agir às vezes junto, às vezes contra, às vezes em paralelo ao corpo.
Eu, por precaução até, fico com o senso comum, e permaneço dualista.
Do mesmo modo, o realismo literário preconizado por Wolfe tem raízes na tradição empirista anglo-saxã: de Roger Bacon a Newton, de Hume a Russell, o racionalismo inglês - cético, realista e lógico - não pode sentir senão desprezo pela "leitura" francesa do racionalismo alemão, um racionalismo tão impregnado de... romantismo!?
No entanto, negar, em contraponto, todo experimentalismo literário baseado apenas nesse "gosto realista" me parece excessivo e inútil como argumento. Lê-se Fogueira de Vaidades com o mesmo prazer com que se lê Esperando Godot, de Beckett. Porque não será jamais a forma ou o engajamento nesta ou naquela "escola literária" que irá garantir a qualidade de um texto.
Concordo que seja tolice dizer que já não se pode escrever segundo os cânones realistas de Zola ou Flaubert - os romances de Wolfe foram sucessos estrondosos. Mas incorrer na tese oposta, de que só o romance realista faz sentido, é igualmente tolo.
Enfim, são inúmeras as questões que o livro põe em discussão. Pode-se concordar ou discordar - aliás, deve-se. Mas a briga é dura e exige argumentos fundados em fatos. Argumentos sólidos, portanto. Sem eles, melhor não se arriscar: é morte certa.


Antonio Caetano é jornalista e publica o
Café Impresso

Nat. Morta - Cézanne

terça-feira, julho 25, 2006

O Desarquiteto das palavras

O PAÍS DOS PONTEIROS DESENCONTRADOS
(Flávio Moreira da Costa, Editora AGIR, 2004)

Flávio Moreira da Costa é um desarquiteto da palavra. Antologista de fôlego ímpar, passeia com segurança e desenvoltura pelos bosques da ficção. Conhecendo à perfeição suas trilhas, atalhos e armadilhas, Flávio desconstrói e subverte a própria Arte Literária em “O País dos Ponteiros Desencontrados”. Desde a gestação do projeto, onde mistura autor, narrador e personagem, até a mescla de gêneros, flutuando entre o romance, o documento histórico, a poesia e o conto, este equilibrista do arame farpado das letras brinca com seu leitor, como Calvino fizera em Se Um Viajante numa Noite de Inverno, mas de forma diversa, original e criativa. O livro inicia com um documento endereçado ao próprio Flávio, recuperando os originais da obra de um certo João do Silêncio. Aqui, autor vira personagem, narrador tem roupagem de autor e personagem e narrador se confundem. Mas tudo é apenas a ante-sala da desconstrução projetada pelo desarquiteto, em que até mesmo os tão evitados clichês são freqüentes instrumentos de subversão. Assim como as referências intertextuais, constantes na ampla obra de Flávio. Desde 1978, quando obteve o primeiro lugar no Prêmio Nacional de Contos do Paraná, com “Malvadeza Durão”, o autor cariúcho já dava mostras de seu incomum talento e domínio técnico. Os Jabutis que hoje descansam em sua estante abarrotada de livros confirmam esta excelência. O País... promete ser o primeiro trabalho de uma trilogia escrita(?) por João do Silêncio. Esperamos que sim, mas com tantas armadilhas semiológicas é de se pagar pra ver. Roland Barthes, se vivo, daria nota máxima a seu aluno brasileiro.
Romance, poesia, crítica sócio-política (um país onde os relógios se desencontram lembra alguma coisa?), documento histórico, conto. Não importa. É Literatura, com L maiúsculo. E, como assoprou Fabrício Carpinejar na orelha esquerda do livro, Flávio Moreira da Costa nasceu para incomodar a Literatura. Ela, incomodada e feliz, agradece.


Marcelo Domingues D’Ávila - Kayuá

segunda-feira, julho 24, 2006

A estepe

A Estepe
Anton Tchekhov

Nova Alexandria

Os textos de Tchekhov sempre dão a impressão de uma simplicidade absurda. Os enredos são mínimos, a histórias curtas, não existem enormes reviravoltas, não há grandes painéis da vida russa, nem dos centros urbanos nem das aldeias do interior. Sua linguagem é clara, direta, singela. Seus personagens são pessoas comuns, do povo, funcionários públicos, camponeses, pequenos intelectuais. Seu olhar focaliza o mínimo, o detalhe, o momento. E com sua tão aparente e falsa simplicidade, acaba captando, na verdade o essencial, a matéria-prima, o real.

Em A ESTEPE, o pequeno Iegóruchka, de nove anos e órfão de pai, está sendo levado pelo seu tio, o comerciante Ivan Ivanovitch Kuzmitchov e o padre Cristofor Siriiski, para morar em outra cidade e matricular-se na escola. Ele não entende o que está acontecendo, sente medo, desconforto. Com breves e rápidas pinceladas, ficamos sabendo que o tio e o padre vão negociar lã com o poderoso Varlámov e aproveitam a viagem para fazer o favor para a mãe do menino. Em poucos parágrafos, linhas, Tchekhov vai delineando as suas personalidades, seus pensamentos e anseios. Simplicidade não quer dizer simplismo. A apresentação é sempre rápida, mas percebemos o quanto são complexos, amplos, inteiros. Vivos.
Este é o fio de história, é um pretexto em realidade, para o desfile e a descrição dos tipos e pessoas pelos quais cruzam. Os donos judeus da pousada onde param para perguntar do paradeiro de Varlámov, os camponeses, a camponesa com seu filho. A natureza em Tchekhov também adquire presença, personalidade, força, vontade. Pode começar com uma brisa suave que embala a sonolência e alivia um pouco o calor. Ou então cai e bate com poderoso temporal, criando momentos de pura poesia em prosa.

"Do outro lado das colinas um trovão ribombou surdamente e soprou uma aragem fresca. Denishka assobiou alegremente e fustigou os cavalos. O padre Cristofor e Kuzmitchov seguravam os seus chapéus e dirigiram o olhar para as colinas... Tomara que caia a chuva!
Mais um pequenino esforço, um só, e a estepe se teria libertado. Mas uma força invisível, opressora, pouco a pouco prendeu o vento e o ar, assentou a poeira, e o silêncio instalou-se novamente como se nada tivesse acontecido. A nuvem escondeu-se, as colinas queimadas ficaram sombrias, o ar paralisou-se submissamente, e só as aves-frias choravam em algum lugar,lamentando sua sorte.
Logo depois, chegou a noite."

Extraordinário é o momento quando aparece a Condessa Dranitiski. São só alguns parágrafos, nem dá para acreditar nisso! E, no entanto, ela agita a todos com sua beleza, com a frescura de sua mocidade e juventude, acende a imaginação do pequeno Iegóruchka. E a nossa, leitores, que também temos que nos contentar com sua breve, tão breve, aparição. Dýmov, por outro lado, é o camponês bruto, forte e maldoso, com o qual nos antipatizamos logo de cara. Mas, de repente, Tchekhov mostra toda sua maestria: com apenas algumas frases, vislumbramos todo um abismo de dor e revolta no meio daquela violência irracional, toda uma vida sufocada e exasperada. Junto com Iegóruchka também ficamos confusos, quase paralisados com a complexidade do problema: nada é tão simples, não se pode fiar na aparência do imediato. Aprendemos a visualizar tons e matizes mais aprofundados nos seres humanos.
Assim, não nos deixemos enganar por esta sua delicadeza, este gentileza, esta tal de Simplicidade. Tchekhov toca fundo e fácil pois era um mestre tal como fazia igualmente com bisturi que também manejava, pois era médico além de ser escritor e dramaturgo.
A ESTEPE é uma de suas obras mais louvadas; pela sua beleza é mesmo um clássico. Diz-se que tem traços autobiográficos, que estaria retratando um pedaço de sua própria infância. É provável que seja, mas não sei se isso modifica em demasia o prazer que tiramos de sua leitura. O subtítulo, "História de uma viagem" é fácil de ser interpretado como mais do que a simples transição de um lugar para o outro; é uma transição pessoal, um rito de passagem para Iegóruchka / Tchekhov. E a nossa.

Claudinei Vieira Desconcertos

sábado, julho 22, 2006

Reparação

Reparação
Ian McEwan

Companhia das Letras

Tradução de Paulo Henriques Britto

Li Reparação recomendado (e emprestado) por uma amiga. Uma leitura não muito fácil, na qual a custo engrenei e que exigiu de mim uma paciência e concentração que eu julgava não ter. O texto, por vezes pesado, repleto de informações, detalhes e descrições (aparentemente desnecessários), me soou, a princípio, um tanto "antiquado" — levando-se em conta que havia sido escrito nos dias de hoje. Falando assim parece que a leitura se constituiu num tormento, o que seria fato se no fim não houvesse uma justificava bastante convincente para tudo o que me soou "estranho". Valeu a pena avançar e chegar ao final (e que final!), quando a gente se dá conta da grande habilidade do autor. Um belo jogo de "alternâncias" que só mesmo alguém tarimbado seria capaz de imaginar, e de ousar colocar em prática.

Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis observa uma cena que atormenta sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre a cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Ian McEwan nasceu em 1948, em Aldershot, Inglaterra. Publicou duas coletâneas de contos e, entre outros romances, A Criança no Tempo, O Jardim de Cimento (adaptado para o cinema), Amor Para Sempre (idem) e Amsterdam, de 1998, vencedor do Booker Prize, o principal prêmio literário da Grã-Bretanha. McEwan é também autor de roteiros cinematográficos.

Wagner Campelo

quinta-feira, julho 20, 2006

Amor Insensato


Un amour insensé
Jun’ichiro Tanizaki

Folio/Gallimard
Traduit du japonais par Marc Mécréant
Preface de Albert Moravia.


Comprei esse Un amour insensé e outros livros de Tanizaki em um sebo em Bruxelas, o Pêle-mêle, e já saí de lá, sentei-me num café e comecei a ler o livro.

Jun’ichiro Tanizaki é um dos principais autores da moderna literatura japonesa, dele eu tinha lido um livro pequenininho (56 páginas), Le Pied de Fumiko, que trata exatamente do pé da moça. Não conheço nenhuma tradução dele para o português. Se não existe tradução é uma pena, é um primor.

De Un amour insensé há, creio, duas traduções, uma delas tem por título Naomi e a outra Amor Insensato, da Companhia das Letras. Este livro trata, grosso modo, da obsessão de Jôji por Naomi e do seu empenho em transformá-la em uma dama ocidental. Jôji Kawai é um engenheiro, funcionário exemplar, 30 anos e encontra Naomi, 15 anos, no bar onde ela trabalha como garçonete. A ocidentalização do Japão é um dos temas recorrentes na obra de Tanizaki. No caso desta em específico, Naomi já foi comparada a esse Japão descaracterizado. Bonita sim, mas superficial, egoísta, mentirosa...Jôji criou um monstro, mas reconhece que não pode viver sem ele. Abandonado ele se arrasta, cede, promete qualquer coisa, aceita todas as condições de Naomi para tê-la por perto. Diz a apresentação desta edição que Amor insensato é a crônica dolorosa da vida do casal.

Naomi já foi comparada a Lolita de Nabokov, mas a diferença de idade entre o casal deste romance e o de Nabokov é muito menor assim como os objetivos (se podemos chamar assim) de Humbert Humbert e os de Jôji.

Eu gosto muito do estilo e da forma de narrar de Junichiro Tanizaki, sem muitos floreios, com muita ironia. Algumas de suas obras, As irmãs Makioka por exemplo, foram adaptadas para o cinema. Falando neste livro é preciso acrescentar que a Companhia das Letras lançou uma bela edição, estou lendo o livro agora e uma resenha dele virá em breve. Uma das tradutoras deste de As irmãs Makioka é Leiko Gotoda, principal tradutora de Tanizaki no Brasil e sobrinha direta do autor.

Junichiro Tanizaki nasceu em Tókio em 1886 e morreu em 1965.

Marcadores: , ,

quarta-feira, julho 19, 2006

Water... Nat Morta - Cézanne

domingo, julho 16, 2006

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto

Edgar Cavalheiro (org.)
Rio de Janeiro
Ministério da Educação e Cultura – Serviço de Documentação
71 págs.
1955


Livros são como pessoas. Há os que são amados e os que são desprezados. Os primeiros têm boa apresentação, são conhecidos, moram em estantes ilustres e nas vitrines das livrarias - esgotando sucessivas edições. Os segundos, coitados, usam sapatos cambaios, roupas bregas e amarelecidas pelo tempo, têm cara de fome e permanecem encalhados em sebos, sem que ninguém se interesse em acariciá-los, pegando-os nas mãos, folheando-os, ou flertando com eles, lendo um pedaço aqui e outro acolá. Livros assim, fazem lembrar moças feias que nos bailes ficam tristonhas e semi-escondidas, tomando chá-de-cadeira.
Mas o mundo das letras, como o mundo dos homens, tem os seus mistérios. Sucesso e fracasso – em ambos os mundos – nem sempre são produtos da competência ou da falta dela, respectivamente, e talvez em muitos casos não sejam. Há livros que nunca deveriam ter sido publicados, de tão bisonhos que são. Há o caso inverso, dos livros que são bons mas, sem padrinhos, não encontram condições para nascer. Existe também o caso de importantes livros que são publicados, fazem sucesso, depois caem no vazio do mercado, ficam aguardando uma segunda edição que não vem, sem que ninguém entenda direito por quê. Este é o caso do livro que dá margem as presentes considerações.
Porque não reeditam A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto? Trata-se de livro composto por 42 cartas trocados ente Monteiro Lobato (1882 – 1948) e Lima Barreto (1881 – 1922); cartas reunidas e comentadas por Edgar Cavalheiro e que se configuram como um documento básico, tanto para um melhor entendimento da vida e da obra de dois grandes vultos das letras nacionais quanto para o resgate de aspectos substantivos do nosso passado literário.
O pontapé inicial da correspondência é dado por Monteiro Lobato em 1918 – ano em que o escritor paulista não apenas estreou no mundo das letras com Urupês, com retumbante sucesso, mas também que adquiriu a Revista do Brasil, tornando-se um editor que abriria espaço para autores nacionais até então desconhecidos, entre outros: Oliveira Vianna, Lima Barreto e Godofredo Rangel – e termina em 1922, ano em que faleceu o romancista de O triste fim de Policarpo Quaresma.
Leitor inveterado, Lobato lia tudo que caia em suas mãos. Um dia, antes de tornar-se o editor que, nas décadas de 10 e 20 do século passado, revolucionou a indústria do livro no país, deparou-se “na Águia” com dois contos de Lima Barreto. Leu-os avidamente e, com Godofredo Rangel, em carta datada de 1/10/1916, após comentar que se inteirara nos jornais sobre o sucesso do “Policarpo Quaresma”, vaticinara a respeito de seu autor: “bacoreja-me que temos pela frente o romancista brasileiro que faltava” (M. Lobato. A Barca de Gleyre, O.C., v. 2, SP, Brasiliense, 1959, pág.108).
Foi para convidar Lima Barreto para colaborar na Revista do Brasil que Lobato escreveu para ele em 2/9/1918. Após elogiar seu estilo solto e sem rapapés, Lobato observa: “A confraria é pobre mais paga, pois isso não há razão para Lima Barreto deixar de acudir ao nosso apelo” (Correspondência ML/LB, pág. 14). O autor de Bruzundangas não apenas colabora como envia o manuscrito de Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá solicitando que Lobato o examinasse e dissesse se tinha interesse em editá-lo. A resposta não tarda, está datada de 15/10/1918. O editor informa que sendo trabalho de Lima Barreto nem tinha necessidade de ler, ia publicá-lo. Propunha uma edição de 3.000 exemplares e bons cobres sobre o lucro. Lima Barreto ficou perplexo: era a primeira vez que recebia uma proposta dessas. Até então, nenhum editor o havia procurado, com semelhante oferecimento. Todos os seus romances tinham sido publicados por sua própria iniciativa, pedindo, oferecendo, ou pagando ele mesmo a edição” ( Francisco de Assis Barbosa. A vida de Lima Barreto. RJ, José Olympio, 1952, pág. 260).
Em 1922, empolgado com o sucesso literário, não só de Urupês mas de seus primeiros livros, Lobato candidatou-se a Academia Brasileira de Letras. O resultado deixou-o decepcionado e durante algum tempo amargou a dor da recusa. Lima Barreto, em 1919, também tentara obter a chamada “imortalidade acadêmica”, não tendo êxito. Décadas mais tarde, após a queda do Estado Novo (1945) ocorreu um movimento para convencer Lobato, então no auge da fama, a candidatar-se novamente a ABL. Inclusive acadêmicos lhe enviam documento a respeito. O pai do Jeca, que fora perseguido e preso na vigência da ditadura de Getúlio Vargas, referindo-se ao pai dos pobres, ironizou: “Convidaram-me para entrar lá, mas sou muito coerente comigo mesmo. Só serei imortal se puserem esse grande gênio para fora de lá, a pontapés” (Lobato. Prefácios e Entrevistas). E Lima Barreto? Ora, era praticamente impossível que uma sociedade marcadamente racista elegesse um negro pobre que escrevia textos de forte crítica social e residia num subúrbio do Rio de Janeiro (Todos os Santos) para ocupar uma cadeira na refinada Academia. Além, disso, na ABL, os acadêmicos tomam chã toda quinta-feira e Lima Barreto tomava cachaça todo dia – como observou H.Pereira dos Santos em Lima Barreto Escritor maldito (1981).
A irreverência, o não ter papas na língua e o bem saber escrever são traços comuns que estão presentes na literatura dos amigos, o paulista José Bento Monteiro Lobato, neto do barão de Tremembé, e a Afonso Henriques de Lima Barreto, filho de um modesto funcionário público. Traços comuns e cada vez mais raros nos dias correntes.
Oxalá que a correspondência entre os dois escritores, que há meio século veio a lume volte a encontrar morada na claridade das livrarias e estantes contemporâneas.

Aluízio Alves Filho


Aluizio Alves Filho é professor e pesquisador do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Leciona também na Pontifícia Universidade Católica - RJ. É mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, centro de excelência que faz parte da Universidade Cândido Mendes. É também doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília e em Estudos Comparativos entre a América Latina e o Caribe pela Facultad Latina-Americana de Ciencias Sociales, cuja sede fica em San Jose da Costa Rica. O primeiro livro que publicou – O Pensamento Político no Brasil : Manoel Bomfim um ensaísta esquecido (Achiamé,1979) – hoje é referência nacional. Publicou também o romance-fábula Os Bichos na Pós-Revolução ‘A Perereka’ (Obra Aberta, 1994), uma sátira da queda do chamado socialismo real na antiga União Soviética, ocorrida em 1991. Este texto foi premiado com Menção Honrosa no Concurso Nacional de Romances – 1993, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Outra publicação do autor que, pela originalidade, merece ser destacada é o ensaio As Metamorfoses do Jeca Tatu: a questão da identidade do brasileiro em Monteiro Lobato (Inverta, 2003). Aluizio que também é autor de diversos artigos acadêmicos, freqüente colaborador de alguns do mais importantes diários do país e analista político de programas de rádio e TV, já foi diversamente premiado em concursos de contos. Juntamente com Leonardo Petronilha edita a revista de ciência política Achegas, uma das mais consultadas publicações eletrônicas na área das ciências sociais.
A partir de hoje Aluizio Alves Filho passa a fazer parte do quadro de colaboradores permanentes do Rosebud-Livros.

quinta-feira, julho 13, 2006

Rachel Jardim e a herança dos mortos: um bordado a retomar

O penhoar chinês
Rachel Jardim

José Olympio Editora



Não se faz mesmo justiça a um grande livro lendo-o só uma vez. Conheci “O penhoar chinês”, de Rachel Jardim, numa quarta edição da José Olympio Editora com que a escritora Rosângela Vieira Rocha, de Brasília, generosamente me presenteou, afirmando ser aquele, possivelmente, o maior romance de Rachel. Rosângela não fez apenas isso: levou-me também a Rachel, a seu endereço, seu telefone, e eu mandei à escritora, que vive um tanto reclusa no Rio de Janeiro, o meu primeiro livro, “Nó de sombras”. Enquanto isso, lia “O penhoar...” e me deslumbrava. Mas lia-o em meio a um monte de outras leituras, porque sou, infelizmente, um pouco dispersivo nisso. Tenho a impressão constante de que sou pouco para os muitos livros que quero ler, que os horários me confundem, que me atrapalho bastante, porque é fundamental, para a leitura, um certo ócio despreocupado e deste, decididamente, estamos privados, devido aos compromissos de trabalho e familiares que temos por vontade própria ou às chateações com as quais nos comprometemos por impulsos bestas. A vida é assim: tudo tende a nos afastar do que realmente importa.
Nas conversas subseqüentes que tive com a escritora – pois ela me presenteou com sua amizade em telefonemas e cartas -, acabei sabendo que “O penhoar...” voltaria, numa quinta edição, pela José Olympio – Funalfa. Voltou. Foi relançado no dia 30 de maio deste ano em Juiz de Fora, na Biblioteca Municipal Murilo Mendes. O exemplar me foi enviado por Ernane Catroli, amigo de Rachel a quem, entre outras pessoas, ela dedica essa reedição. Pensei, então, que era a hora para uma releitura, esta sim cuidadosa. E a fiz.
Começo dizendo que essa quinta edição tem uma belíssima capa, realizada por Lígia Lacerda, com uma fotografia das Irmãs Surerus, de uma família alemã, a trabalhar num bordado, evocando uma atmosfera de romance de Thomas Mann. Pertencente ao acervo do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora, em preto-e-branco, a fotografia é encimada por um diluído rosa onde se vê, em desenho, um galho de cerejeira. Entregando-se à leitura do romance, o leitor saberá o que aquelas irmãs concentradas no seu trabalho de mão e aquele galho de cerejeira significam.


Um pacto com o passado... ou com a Eternidade?

Não ofenderei Rachel se disser aqui que ela é uma escritora do passado, se nos ativermos ao sentido estrito com que se julga, hoje em dia, superficialmente, as estéticas que não compactuam com a “transgressão” e outras bobagens frívolas, passageiras, que a mídia incensa cegamente. O refinamento que Rachel cultua – grande leitora de Proust que é – pertence a uma categoria que, decididamente, anda em baixa. Mesmo as pessoas tidas por refinadas, hoje em dia, não passam das leituras de colunas sociais e, quando muito, de algum livro da moda ou nem deste, mas de suas orelhas, e Rachel sabe disso. Fala-se de um escritor ou outro por ouvir dizer ou por razões extra-literárias. Disse a ela várias vezes – e nem precisava dizê-lo, pois ela sempre acreditou nisso, e seus personagens o dizem – que entre vida literária e literatura vai um abismo, que a primeira até mesmo impede, com seus mundanismos, que a segunda se manifeste com inteireza. Rachel, que escolheu a solidão, como tema literário e como vida, é a melhor prova disso.
“Cada vez mais é ao passado que presto contas e só através dele tenho a visão unívoca de minha vida. Penso, às vezes, que não é para frente que caminhamos. É para trás que prosseguimos, carregando as imagens do presente, o futuro um acréscimo que se esgota na órbita do dia”. Perfeito. Como eu gostaria de poder ter escrito isso! Está lá, na página 170, de “O penhoar chinês”.
O leitor encontrará, nessas 268 páginas, uma história que parece ter a simplicidade de um folhetim (a uma certa altura, inclusive, tudo dependerá da revelação escondida por uma carta) – a história de uma família e de uma casa, em aparência. Ora, um superficial qualquer pode julgar também, pela orelhada, que “Em busca do tempo perdido” é só a história de um narrador asmático, apaixonado edipianamente pela mãe, que recorda seu passado, seus amores, seus amigos, sua escalada social, sua decadência, e, finalmente, sua reclusão para escrever um romance monumental. Proust também é folhetinesco, sem problema algum. Rachel nos conta, na verdade, outras coisas, mas aí, caberá ao refinamento dos leitores entender onde, em essência, se encontram um bordado com a paisagem chinesa imaginária de um pavão e cerejeiras, um irmão de sangue que aparecerá como um xifópago que permanecera oculto, uma mãe separada de um pai por barreiras muito sutis dentro de uma casa construída por este. São formas com as quais Rachel bordará. O começo terá contraponto exato e lógico no fim. Tal como em “A busca...”, é preciso ir até ao extremo extenuado da vida para encontrar o recomeço.
É de Arte superior que esse livro trata. De uma mãe que faz seu bordado e lê o “Doutor Faustus”, de Mann, e ouve Mozart e Purcell, de uma filha que se faz escritora (sem saber que a mãe também o era, de certo modo, e refinadíssima), de um pai arquiteto que ergueu uma mansão para a mulher oficial e outra casa para uma ilegítima, dividindo-se, perdendo-se. Arquitetura, urbanismo, bordado, música, literatura, “O penhoar chinês” toca em tudo que é preciso, o que se trama e o que precisará, sutilmente, ser destramado para que a essência do ato criativo se desvende. Não que aí o Mistério se esgote. Muito ao contrário: é aí que explode em epifania.
Rachel é uma festa para o leitor sensível. Uma festa refinada, naturalmente, e como os banquetes literários de hoje em dia têm como cardápio só caldos ralos, está fora de moda. Mas, ela tem leitores fiéis. As duas mulheres, Lélia Almeida e Rosalina de Vincenzi, que assinam o prefácio e o posfácio respectivamente, estão entre eles. Mas há outros, há mais, há os anônimos, há os outros escritores que aprenderam suas lições, de algum modo, e fazem obras de costas para a circunstância, procurando, acima de tudo, a fidelidade a si mesmos, com reverência e amor doido ao passado,numa jornada delirante que, a uma certa altura, poderá dar na fidelidade à alma de todo mundo, nessa universalidade a que a grande literatura sempre aspira.
O certo é que é preciso reler Rachel. E a José Olympio/Funalfa está de parabéns pelo livro que, mesmo tendo lá seus errinhos de revisão, é uma bela edição.

Chico Lopes

Chico Lopes estreou como autor publicado em 2000 com o livro de contos "Nó de sombras" (contos, IMS/SP). Nascido em Novo Horizonte, SP, ele viveu nesta cidade até os 39 anos, quando se mudou para Poços de Caldas, MG. Em Novo Horizonte, havia ajudado a fundar e dirigir os jornais "A Cidade", "A Voz da Região" e "O Jornal" e ganhado notoriedade como pintor e desenhista, além de escrever seus primeiros trabalhos de ficção, poesia, ensaio e crítica de cinema, mas foi em Poços de Caldas, trabalhando como programador e apresentador do Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles - Casa da Cultura, que publicou seu primeiro livro, "Nó de sombras", de contos, lançado pelo IMS. Com a boa acolhida da crítica e do público (a tiragem se esgotou), Lopes teve publicado em 2004 seu segundo livro de contos, "Dobras da noite", com uma acolhida ainda mais favorável da crítica e do público, e foi conquistando um sólido número de leitores e admiradores. Paralelamente, começou uma carreira de tradutor com "A volta do parafuso", de Henry James, em 2004 (edição bilíngüe/Landmark-SP), que teve prosseguimento com a tradução de contos norte-americanos clássicos (de Nathanael Hawthorne, Bret Harte e outros autores) para a antologia de Natal "Os mais belos contos de amor e esperança" (Prestígio Editorial/Ediouro, SP, 2005).
A partir de hoje Chico Lopes está conosco no Rose-Livros. Para breve uma resenha de “Nó de sombras”, por Leila Silva.

quarta-feira, julho 12, 2006

Compotier... - Nat. morta - Cézanne

terça-feira, julho 11, 2006

Os Buddenbrooks

Os Buddenbrooks
Thomas Mann

Editora Nova fronteira

É a terceira vez que leio Os Buddenbrooks. Ainda muito jovem tentei começar Thomas Mann pela Montanha mágica. Não consegui. Tempos depois ganhei esse volume de Os Budd e com ele fiz as pazes com o autor. Na época procurei tudo que havia dele espalhado pelas livrarias. Tenho essa mania, gosto de um autor e tento ler tudo o que puder dele. Foi assim com Saramago, depois que aprendi seu ritmo, em A jangada de pedra (cuja fina ironia recomendo), com Doris Lessing, com Norman Mailer, um dos meus favoritos (quem não leu Os nus e os mortos?) e com vários outros.
Mas voltando a Mann. Os Buddenbrooks, que lhe deu a notoriedade que o levaria até o Nobel em 1029, é um livro memorável. Lançado em fevereiro de 1901 retrata a Alemanha luterana e comerciante dos anos 1800, em sua alta burguesia com uma acuidade que nos leva a reflexão de todas as conseqüências que isso trouxe para a Europa e porque não? para o mundo.
Lübeck, hoje patrimônio cultural da humanidade, cidade natal de Mann e cenário do livro, já era uma potencia comercial respeitável desde a Idade Média ( a famosa liga Hanseática). “...Próximo à prefeitura se encontra a casa que virou título de romance e deu fama mundial a Lübeck: a Buddenbrookhaus (na Mengenstrasse), que lembra os filhos mais ilustres da cidade, os escritores Heinrich e Thomas Mann, e os Buddenbrooks. O mundo dessa dinastia artística é exposto em dois andares do prédio, através de material fotográfico e fontes contemporâneas. Ali ficção e realidade se fundem: móveis antigos e um teatro de marionetes ainda estão lá, como se os Buddenbrooks do romance que rendeu o Prêmio Nobel de Literatura a Thomas Mann (1875–1955) tivessem acabado de sair de casa. Nos bastidores, um arquivo convida pesquisadores a vasculhar a história e a obra dos Mann....” DW World.DE
Também grande atração, hoje, de Lubeck é a Casa de Gunter Grass, outro alemão ganhador do Nobel de literatura e que vive na cidade desde 1995.
A saga e decadência da família Buddenbrook, grandes comerciantes que levaram até as ultimas conseqüências a noção de dever e sacrifício tem, segundo os maiores especialistas em Mann, muito de autobiográfico. O autor, um homem contraditório, na vida pessoal e política, fugiu do nazismo, indo para os EUA de onde também teve que sair em virtude de suas ideias socialistas ( na época do senador Joseph McCarthy).
Filho de uma brasileira que veio a inspirar nosso João Silvério Trevisan no seu premiado Ana em Veneza.
Sobre Mann ver:
vera do val Rosebud

sábado, julho 08, 2006

O virtuose


Margriet de Moor

Companhia das Letras

Tradução de Paul Van Dender


Admito: comprei o livro pela bela capa. Aliás, capa e sobrecapa. A instigante voluta da sobrecapa se prolonga até o verso delineando o que parece o capitel de uma coluna antiga em meio à penumbra de um teatro. Na capa, uma bonita gravura barroca em bico de pena, se espalha pela lombada até o verso, sobre um fundo dourado. No interior, um projeto gráfico impecável. Em suma, o livro de bolso mais "luxuoso" que já havia visto. Como resistir a um primor estético desse quilate? (na época, eu ainda podia me dar a esse luxo).
O texto? Bem, digamos que possui méritos e deméritos (pelo menos na minha opinião). O que mais me agradou foi a forma moderna que a autora holandesa usou para contar essa história antiga, barroca. O que deveria soar incoerente, acaba sendo um trunfo. Eu, geralmente avesso a narrativas não-lineares, não me perdi em momento algum num texto que revela desordenadamente a história dos personagens como lembranças distantes e recentes. Por outro lado, perto do fim, o livro perde a intensidade e a expectativa que acabei criando não se cumpre: parece que faltou algo mais definitivo, mais finito. Há ainda um "elemento adicional" que pode agradar tanto a alguns como desagradar a outros: a música. Quem conhece teoria musical ou toca algum instrumento verá no livro um "sabor" que para quem não é iniciado nessa arte talvez soe exagerado. Sorte a minha estar no primeiro caso. Mas isso não significa que o livro se destine especificamente aos "iniciados". Ainda que eu não tenha achado o final surpreendente (eu e essa minha mania estranha...), creio que o livro seja interessante para quem pretende conhecer algo da literatura holandesa atual.

A história se passa numa época em que um cantor de ópera podia tranqüilamente descascar uma laranja no palco, enquanto esperava sua vez de cantar. E não parecia estranho que marido e mulher formassem outros pares, ele com um jovem amigo, ela com um cantor castrado, todos apaixonados.
"A essência de todo enigma é uma pergunta, em última análise". Numa narrativa não-linear que combina a informalidade do registro coloquial e a prosa quase poética, Margriet de Moor vai à Itália do século XVIII para ambientar esse romance que transforma pequenas surpresas em perguntas.
O virtuosismo vocal de Gasparo se deve à mutilação do corpo. Sua arte é fruto de um assalto à natureza. Mas não há nenhum drama na vida de Gasparo. "Seu corpo é o que você é", diz a narradora. E ele, o castrato, é perfeito — na voz, na técnica vocal, na musicalidade, no modo como simula a mais bela das mulheres ao entrar em cena num papel feminino. O fascínio que Gasparo exerce no palco arrasta Carlotta para uma fantasia erótica que não foge às praxes amorosas da época. Aqui os papéis sexuais podem ser mais fluidos, música pode ser desejo, conhecimento pode ser prazer, virtuosismo pode ser virtude. E "cantar é um comportamento íntimo que, contrariando a regra, não se guarda em segredo".

Margriet de Moor nasceu em 1941, na Holanda. Estudou canto e piano. Estreou na literatura com novelas e contos e em 1993 lançou o romance Primeiro Cinza, Depois Branco, Depois Azul traduzido para diversas línguas. O Virtuose, de 1994, é sua primeira obra lançada no Brasil.

Wagner Campelo Por um triz

sexta-feira, julho 07, 2006

Peppermint - Nat. Morta - Cézanne

terça-feira, julho 04, 2006

Derrotista

Derrotista
Joe Sacco
Editora: Conrad

ISBN: 8576161427
Ano: 2006
Edição: 1
Número de páginas: 217

Joe Sacco nasceu em Malta em 1960, viveu na Austrália e atualmente vive em Seattle, Estados Unidos. Identifica-se mais com a cultura americana, conhece bem os Estados Unidos e sente-se bem ali, mas reconhece que é híbrido e que tem muito do europeu também. Viaja o mundo colhendo dados e inspiração para seus trabalhos, o mais conhecido no Brasil é Palestina – Uma Nação Ocupada. Diz-se que Joe Sacco criou um gênero novo, o jornalismo em quadrinhos. Ele, de fato, é jornalista por formação, em 1981 obteve um diploma de bacharel em artes, voltado para o jornalismo na University of Oregon.

Derrotista é um trabalho autobiográfico, reunião de várias histórias curtas e sobre temas variados, guerras, amigos, uma viagem acompanhando uma banda de rock em ‘Na companhia do cabelo comprido’, a infância da mãe e o fascismo em ‘Mais mulheres, mais crianças, mais rápido.’, etc. É interessante também o uso que faz de algumas notas da imprensa na história ‘Quando boas bombas acontecem para pessoas más’. Uma delas retirada da Newsweek de 28 de abril de 1986:

“Junto à porta, jaz o corpo de uma menininha...ao seu lado uma criança de macacão rosa. Entre eles duas mãozinhas amputadas pouco abaixo do pulso.”

Marcadores: ,

segunda-feira, julho 03, 2006

Contos fantásticos no labirinto de Borges


Borges é um sobrenome de luxo. A música brasileira que o diga, com Lô, Márcio, Telo, e toda a dúzia de irmãos. E até na literatura portenha eles estão, representados pela figura de Jorge Luiz. Pois é sobre esse grande escritor que eu pretendo falar. Poderia, em outra ocasião, falar da família mineira, mas fugiria do escopo desse nosso espaço.

Não conheço quase nada de Jorge Luiz Borges. Um dos poucos que eu li não é dele, um e-mail desses que passam por todo mundo, com mensagenzinha bonitinha, geralmente atribuído a um autor famoso. Não, "Intenções" não é dele, apesar de vários sites em diversas línguas dizerem que é.

Essa lacuna em minha vida foi parcialmente preenchida com o livro "Contos fantásticos no labirinto de Borges", de Bráulio Tavares. Trata-se de uma antologia de contos com temática borgeana escritos por autores clássicos. Participam nomes como Franz Kafka, Robert L. Stevenson, Nathaniel Hawthorne e Ambrose Bierce, figuras eminentes da literatura fantástica; Ellery Queen, Edgar Allan Poe, G.K. Chesterton, representando o gênero policial; Ray Bradbury e H.G. Wells, para não deixar a ficção científica de fora. Também foram selecionados alguns autores admirados por Borges, mas desconhecidos no Brasil, como Nelson Bond, Léon Bloy e Lord Dunsany. Os dezoito contos têm em comum uma referência à extensa obra de Jorge Luiz Borges: seja pelo fato de ele ter usado a mesma temática, ou por se referir à obra em seus ensaios, ou por simplesmente admirar o tal artista.

Antes de cada conto, Bráulio Tavares apresenta uma breve biografia do respectivo autor e o motivo de ter sido escolhido para a antologia. Mas o grande trabalho dele nesse livro - além de selecionar dezoito contos num universo gigantesco - é o posfácio, uma biografia de Jorge Luiz Borges contada através da sua obra literária, com referência aos contos aqui presentes.

E, para terminar, um pequeno teaser, o primeiro parágrafo de "O acabacaxi de ferro", de Eden Phillpotts (1862-1960), escritor inglês um tanto desconhecido por aqui. Esse conto foi incluído na antologia "Los mejores contos policiales", de Borges e Adolfo Bioy Casares.

"Escrever será para mim reconfortante. Foi reconfortante contar a minha esposa, mas o conforto foi-se quando ela se recusou a acreditar no que eu contava e sugeriu enviar-me a um médico."

domingo, julho 02, 2006

Coin table - Nat. Morta - Cézanne

Free Web Hit Counters
Free Counters