Hilda Hilst
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida.
Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora".
Hilda Hilst - Alcoólicas

Com efeito, apesar de sua obra já estar traduzida para algumas línguas e ser conhecida de gente culta e bem pensante há décadas, a maioria de seus livros foi publicada apenas por pequenas editoras, com notável destaque para Massao Ohno. De todo modo, ela venceu, como prova a origem da epígrafe deste artigo, cujos versos foram extraídos de “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, escolhidos pelo crítico e professor universitário Ítalo Moriconi (Rio, Editora Objetiva, 2001).
E como o município que ela escolheu para viver a tratou? Vejamos o que nos informa Silvana Guaiaume, correspondente do Estado de S.Paulo em Campinas: "A escritora enfrentou uma grave crise no final da década passada, quando a prefeitura de Campinas quis cobrar impostos atrasados sobre sua propriedade, ameaçando levar sua casa a leilão".
Ao cobrir a morte da escritora, nossa imprensa, descontando-se mancadas antológicas, forneceu ao leitor abundantes matérias, por norma negadas quando viva. Ainda assim, seu cadáver ainda quente, um comentarista da Rádio CBN lamentou que ela tivesse demorado a conquistar os leitores e para fazer sucesso ela escrevera até mesmo livros de auto-ajuda, como Perdas e Ganhos, há tempos freqüentando a lista dos mais vendidos. (O livro em questão é de Lya Luft e não é de auto-ajuda). Hilda Hilst escrevendo livros de auto-ajuda! Esta foi para o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, edição póstuma, revista pelo espírito do autor, psicografado pelo comentarista em seu notável escorregão. Por se tratar de programa de rádio, a correção poderia ter sido feita instantaneamente, mas não o foi e a confusão teve ter feito escola, pois repetir é recurso ordinário na terra dos papagaios.
Angústias de Hilda
Carlos Heitor Cony, entretanto, no mesmo programa de rádio, destacando a impor

Hilda Hilst estreou como escritora no esplendor dos vinte anos, com Presságio. A nuvem de melancolia que pairava sobre sua obra foi o Brasil quem estendeu. E foi fruto de uma desgraça nacional: mais de meio século depois de sua estréia, o país ainda não foi alfabetizado e a riqueza dos livros continua concentrada como todas as outras, com a exceção natural do talento, que viceja misteriosamente em indivíduos aleatoriamente escolhidos pelo que chamamos também Destino. E este era o caso de Hilda Hilst.
Mas esses indivíduos não estão imunes ao meio social. Este problema foi magistralmente abordado por Thomas Mann em Os Buddenbrook:
"Haverá sempre homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela a sua privilegiada vida interior, enriquecendo assim o mundo sentimental de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes, querida, as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes".
Profusão e diversidade
Outra mancada consistiu em mudar o local de nascimento da escritora, de Jaú para Campinas. Mas foi compensada largamente pela qualidade do que disseram as personalidades escolhidas para repercutir o desaparecimento da escritora.
"Hilda é um caso raro na literatura brasileira", disse Marçal Aquino, explicitando que ela tinha legiões de fãs, apesar do trabalho solitário e pouco reconhecido. O poeta Álvaro Alves de Faria, que a visitara havia pouco tempo, lembrou que ela estava preocupada com o que fariam depois de sua morte com os seus 70 cães.
Tomara que não façam o que a escritora revelou num artigo que publicou no jornal “Correio Popular”, de Campinas (1/3/93):
"E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: ‘E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?’ Resposta: ‘Tive de matá-los’. ‘Mas por quê?!’ Resposta: ‘Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos’. ‘Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?’ Olhou-me aparvalhado: ‘Mas onde? Pra quem?’ ‘E como você os matou?’ ‘A pauladas’, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin (?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las?"
Tarefa urgente

Na década de 1970 ocorreu processo semelhante com Clarice Lispector, de quem foi requerido, como de hábito, o atestado de óbito para o reconhecimento.
Hilda Hilst inspirou grandes poetas brasileiros em atividade, como é o caso de Neide Archanjo, que acaba de lançar livro novo em Paris e vai ter toda a sua obra publicada pela editora A Girafa.
Como o escritor é a lenha de sua própria fogueira, que a morte de Hilda Hilst nos leve à formulação de novas estratégias para o livro, que evite tanto descaso. Ainda não é tarde, pois nunca é tarde para recomeçar. E a tarefa é urgente.
Deonísio da Silva - Observatório da imprensa